Eu, a viola e Deus

A viola caipira de 10 cordas é um instrumento de origem portuguesa, mas convencionalmente usado nas canções brasileiras tradicionais. Incrível o potencial musical a ser explorado na viola, pois ela pode ser afinada em 400 possibilidades, como conta o estudioso de viola e grande tocador Miltinho Edilberto. Aliás, Miltinho esteve em Pedro Leopoldo na década de 80, apresentando-se no restaurante casarão do Zé Wilson. Na oportunidade, o Toninho Camargos e o Murilo Albernaz trouxeram muita gente boa para aquele espaço de cultura. Foi no casarão que tive a oportunidade de ver a exibição de viola caipira do Miltinho Edilberto. A partir dali despertou em mim um gigante adormecido: os encantos da música de raiz.

Demorei um pouco ate ter coragem de tentar tocar a viola caipira. Um dia destes, entrei na loja do Lê, na rua Roberto Belisário, e lá estava uma violinha simples. Cismei de tocá-la. Olha que saiu uma canção?  Então eu me arrepiei e comprei a viola na hora. Cheguei em casa com a violinha e dali pra frente venho descobrindo o potencial deste instrumento encantador. Seu som tem despertado nas pessoas que a ouvem muita coisa boa da simplicidade e dos encantos do cancioneiro popular.

No cortejo da Louvação, em janeiro deste ano, entramos em muitos lugares de Pedro Leopoldo e eu sempre com minha viola caipira. Morei sozinho em São João del Rei por quase três anos, mas um dia ouvi uma canção de Rolandro Boldrim: EU a VIOLA e DEUS… Então, percebi que não estava sozinho. A viola me colocava sempre ao lado de uma poesia companheira …

Tenho uma relação de amizade com minha violinha. Ela é um instrumento eterno, pois um instrumento com 400 afinações, nunca vou conseguir dizer que sei tocá-la, pois estarei sempre aprendendo. Trata-se de um eterno desafio.

No Brasil a viola de 10 cordas se notabilizou pelas composições dos geniais Tião Carreiro e Pardinho, através de seus animados pagodões caipiras, muito diferentes destes pagodes de sambas, também muito bonitos. Não nos esqueçamos dos grandes catireiros brasileiros, que combinam o som da viola caipira com os sapateados dançantes. Outro grande violeiro foi o simples Bambico, grande violeiro que fazia solos maravilhosos de viola. Em Minas, atualmente, destaque para o grande violeiro natural de São João del Rei, Chico Lobo e para o Pereira da Viola, que esteve na praça da estação no show maravilhoso recentemente.

Na tradição da viola caipira, destaque também para o genial Renato Andrade, que nos deixou antes da hora. Fazia da viola um instrumento de humor e alegria, além do grande Téo Azevedo, com sua voz possante de cancioneiro popular. Não toco viola por acaso, pois meu avô, Sô Barroso, era músico e tocava rabeca e violino e ensinava música para as crianças de Inácia de Carvalho, também conhecido como Sobrado. Sô Barroso era casado com Dona Cessa e morou em Dr Lund muitos anos. Seu Túmulo está lá no cemitério do Sobrado.

Texto de Gisnaldo Amorim