Gente Humilde da Rua São Sebastião: uma inspiração para Garoto?

Aníbal Augusto Sardinha, “Garoto”, (1915-1955), foi um músico brasileiro que dominava quase todos os instrumentos de cordas dedilhadas, especialmente violão, banjo, contrabaixo, violoncelo, guitarra, cavaquinho e bandolim. Sua maneira de compor e interpretar o samba e o choro ao violão deu novo rumo à música popular brasileira, influenciando alguns dos maiores nomes da geração posterior à sua e apontando o caminho que anos depois levou à bossa nova.

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Imagem promocional do livro Gente Humilde, de Jorge Melo.

Alguns amigos ligaram Garoto a Pedro Leopoldo. Revelam Geraldo Leão e Tonico Malaquias que Garoto vinha com frequência a Pedro Leopoldo, reunindo-se na casa de Pedro Quintão, cunhado de Chico Xavier, na Rua São Sebastião, encontrando-se com Pachequinho, Inezita Barrozo, Cartola e Pixinguinha e outros músicos amigos de Pachequinho da metade do século XX. Nesta casa, hoje, funciona uma Funerária.

Um grupo variado e amigo que se reunia vez ou outra para apreciar e criar música. Sr. Geraldo Leão revela que Chico Xavier também teria participado de alguns encontros deste grupo.

Uma curiosidade para a cidade de Pedro Leopoldo diz respeito à composição da música Gente Humilde, cujo arranjo para melodia teria sido criado na cidade, num destes encontros, segundo relata Geraldo Leão. A música recebeu, posteriormente, letra de Chico Buarque e Vinícius de Morais.

Gente Humilde
Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

De acordo com o músico Paulo Belinatti, Gente Humilde foi gravada originalmente na casa de Pedro Quintão, em Belo Horizonte.

Gente Humilde [veio] de uma gravação muito ruim feita aí em BH na casa de Pedro Quintão. Este senhor, já falecido, era casado com a irmã de Chico Xavier (o famoso médium espírita) e tanto o Garoto quanto o Radamés frequentavam sua casa em BH na década de 50 (BELINATTI, 2009, apud JUNQUEIRA, 2010, p. 23).

Geraldo Leão revela que a música foi composta por Garoto em Pedro Leopoldo.

Breve pesquisa em Bibliotecas Digitais demonstra o mistério que paira sobre a composição da música Gente Humilde. Alguns autores dizem que a letra é de autoria de um poeta mineiro que pediu anonimato a Garoto. Outros afirmam ter sido a letra da música composta por Garoto nos subúrbios do Rio de Janeiro, e outros, em maior número, afirmam ser a letra de autoria de Vinícius de MOrais e Chico Buarque em período posterior à morte de Garoto. Pesquisas mais cuidadosas, como a que consta na dissertação de mestrado de Humberto Junqueira, revelam a ligação de Garoto com um grupo musical ligado a Pedro Leopoldo, reunindo-se na casa do cunhado de Chico Xavier, onde teria sido composta a primeira versão de Gente Humilde. Familiares de Chico Xavier conservam o violão de Pachequinho, em que constam assinaturas de grandes compositores, intérpretes e instrumentistas do período.

A música Gente Humilde foi imortalizada pela voz de Luiz Melodia. Para ver uma destas interpretações, no programa Sr. Brasil, clique aqui http://www.youtube.com/watch?v=z2E3wLSgYZA

para saber mais, consulte:

Gente humilde, vida e música de Jorge Melo, Edições Sesc, 2012.
A obra de Garoto para violão – o resultado de um processo de mediação cultural. Universidade Federal de Minas Gerais, Dissertação de mestrado em Música, 2010. Autoria de Humberto Junqueira, p. 23.

Pesquisa e texto de Gisnaldo Amorim e Júnia Sales. Para reproduzir parcial ou totalmente este post, entre em contato com os autores. Direitos reservados.