Dos gatinhos ao Incrível Hulk: máscaras no Boi da Manta

Personagem constante no Boi da Manta, o mascarado sofreu modificações que acompanham as transformações de um mundo em que a intimidade era um valor a ser preservado para, nos dias atuais, um mundo de extrema exposição da intimidade.

Chico Buarque inspirou-se nas diferentes formas da atuação dos mascarados para criar Note dos Mascarados, música que interroga a identidade por detrás da máscara, ritualística criada pelo festejo carnavalesco.

– Quem é você?
– Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

– Quem é você, diga logo…
– Que eu quero saber o seu jogo…
– Que eu quero morrer no seu bloco…
– Que eu quero me arder no seu fogo.

– Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
– O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
– Eu tenho um pandeiro.
– Só quero um violão.
– Eu nado em dinheiro.
– Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
– Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
– Eu sou tão menina…
– Meu tempo passou…
– Eu sou Colombina!
– Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

Em sua origem, os mascarados do Boi da Manta compunham um cortejo de Gatinhos, personagens anônimos de máscaras rústicas confeccionadas com lenços e lençóis. Com o tempo, os mascarados se multiplicaram no Boi da Manta, sendo muito variada a composição de máscaras e formas de atuação.

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Gatinho no Boi da Manta 2012.

As atualizações do tempo também passaram a povoar o Boi da Manta, sendo que os mascarados também passaram a representar personagens políticos importantes, personalidades famosas e figuras tradicionais como macacos, chinpanzés, bruxas e velhas demoníacas, além de fantasmas e demônios, todos de rosto coberto.

O conceito de máscara do período requeria a ocultação da personalidade original para dar lugar a uma ficção, um personagem criado para o Boi da Manta, tornando anônimo o seu portador.

Associam-se aos mascarados os personagens também típicos como os homens vestidos de mulher e de bebê chorão, as mulheres vestidas de freiras e noivas fantasmas.

O Boi da Manta já imortalizou pessoas, personas e personagens: quem não se recorda de Miguel Matogrosso e sua performance? De Toninho de Elaine desfilando magistralmente em seus mágicos patins? De Mauro Morais com suas correntes de zumbi? De Tomezão com fantasia de Moita? E de Carlinho Rajão com os personagens de Chico Anísio (Pantaleão, Coalhada…). Fantásticos!

Nos dias de hoje e há pelo menos uns 20 anos, a intimidade abriu-se. Os mascarados, no sentido de ocultação da persona que está na base da máscara, deram lugar aos personagens híbridos e não-anônimos, que revelam sua identidade, mostram-se de cara limpa ou pintada, sendo reconhecidos como foliões e brincantes.

Os personagens de novela e filmes povoam o Boi da Manta, os políticos e personagens imortalizaram-se na forma de bonecões brincantes que são narradores da história da cidade e do Boi da Manta, misturados: Calango, Zé Pires, Pelau, Cecé e o Palhaço Pierrot. O Pierrot é uma das personagens que remete o Boi da Manta aos Bailes de Salão ainda sob influência portuguesa.

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Incrível Hulk, por Rubinho.

A cara à mostra é uma das marcas mais fundamentais da vivência atual do Boi da Manta, um sinal transformação também das repressões que povoavam o imaginário sobre a participação no Boi da Manta, sobre os significados atribuídos pela população a este festejo popular de Rua que é pura subversão e alegria, extravasão e entrega a Dionísio.

Texto e fotografia de Gisnaldo Amorim e Júnia Sales. Direitos reservados.

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Gente Humilde da Rua São Sebastião: uma inspiração para Garoto?

Aníbal Augusto Sardinha, “Garoto”, (1915-1955), foi um músico brasileiro que dominava quase todos os instrumentos de cordas dedilhadas, especialmente violão, banjo, contrabaixo, violoncelo, guitarra, cavaquinho e bandolim. Sua maneira de compor e interpretar o samba e o choro ao violão deu novo rumo à música popular brasileira, influenciando alguns dos maiores nomes da geração posterior à sua e apontando o caminho que anos depois levou à bossa nova.

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Imagem promocional do livro Gente Humilde, de Jorge Melo.

Alguns amigos ligaram Garoto a Pedro Leopoldo. Revelam Geraldo Leão e Tonico Malaquias que Garoto vinha com frequência a Pedro Leopoldo, reunindo-se na casa de Pedro Quintão, cunhado de Chico Xavier, na Rua São Sebastião, encontrando-se com Pachequinho, Inezita Barrozo, Cartola e Pixinguinha e outros músicos amigos de Pachequinho da metade do século XX. Nesta casa, hoje, funciona uma Funerária.

Um grupo variado e amigo que se reunia vez ou outra para apreciar e criar música. Sr. Geraldo Leão revela que Chico Xavier também teria participado de alguns encontros deste grupo.

Uma curiosidade para a cidade de Pedro Leopoldo diz respeito à composição da música Gente Humilde, cujo arranjo para melodia teria sido criado na cidade, num destes encontros, segundo relata Geraldo Leão. A música recebeu, posteriormente, letra de Chico Buarque e Vinícius de Morais.

Gente Humilde
Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

De acordo com o músico Paulo Belinatti, Gente Humilde foi gravada originalmente na casa de Pedro Quintão, em Belo Horizonte.

Gente Humilde [veio] de uma gravação muito ruim feita aí em BH na casa de Pedro Quintão. Este senhor, já falecido, era casado com a irmã de Chico Xavier (o famoso médium espírita) e tanto o Garoto quanto o Radamés frequentavam sua casa em BH na década de 50 (BELINATTI, 2009, apud JUNQUEIRA, 2010, p. 23).

Geraldo Leão revela que a música foi composta por Garoto em Pedro Leopoldo.

Breve pesquisa em Bibliotecas Digitais demonstra o mistério que paira sobre a composição da música Gente Humilde. Alguns autores dizem que a letra é de autoria de um poeta mineiro que pediu anonimato a Garoto. Outros afirmam ter sido a letra da música composta por Garoto nos subúrbios do Rio de Janeiro, e outros, em maior número, afirmam ser a letra de autoria de Vinícius de MOrais e Chico Buarque em período posterior à morte de Garoto. Pesquisas mais cuidadosas, como a que consta na dissertação de mestrado de Humberto Junqueira, revelam a ligação de Garoto com um grupo musical ligado a Pedro Leopoldo, reunindo-se na casa do cunhado de Chico Xavier, onde teria sido composta a primeira versão de Gente Humilde. Familiares de Chico Xavier conservam o violão de Pachequinho, em que constam assinaturas de grandes compositores, intérpretes e instrumentistas do período.

A música Gente Humilde foi imortalizada pela voz de Luiz Melodia. Para ver uma destas interpretações, no programa Sr. Brasil, clique aqui http://www.youtube.com/watch?v=z2E3wLSgYZA

para saber mais, consulte:

Gente humilde, vida e música de Jorge Melo, Edições Sesc, 2012.
A obra de Garoto para violão – o resultado de um processo de mediação cultural. Universidade Federal de Minas Gerais, Dissertação de mestrado em Música, 2010. Autoria de Humberto Junqueira, p. 23.

Pesquisa e texto de Gisnaldo Amorim e Júnia Sales. Para reproduzir parcial ou totalmente este post, entre em contato com os autores. Direitos reservados.

A musicalidade do Boi da Manta

A Banda do Boi da Manta de Pedro Leopoldo tem tanta história quanto o próprio boi da manta. Inicialmente muito influenciada pela música e formação musical da Banda de Mùsica Cachoeira Grande, hoje a Banda do Boi da Manta é composta por músicos de vários pontos da cidade, com forte influência dos músicos de tradições de folias de reis e congados, principalmente de Santo Antonio da Barra. A coordenação musical da Banda é de César, de Santo Antonio da Barra.

Tambores, clarinetas, tarol, bumbos, piston, trombone de vara, tamborim e xique xique, dentre outros, compõem o acervo de instrumentos musicais presentes na bandinha.

A musicalidade do Boi da Manta de Pedro Leopoldo é composta por mistura de marchinhas de carnaval do passado e músicas do tempo presente.

O repertório da Banda do Boi observa pontos especiais do trajeto pela Rua Comendador Antônio Alves. Em frente à casa de Chiquita Carvalho, a Bandinha do Boi toca a marchinha Chiquita Bacana, uma bonita homenagem a esta saudosa pedroleopoldense.

Chiquita Bacana
Braguinha

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma
Casca de banana nanica.

Não usa vestido, não usa calção;
Inverno pra ela é pleno verão.
Existencialista (com toda razão!),
Só faz o que manda o seu coração.

Em frente à Igreja Matriz a Banda silencia em sinal de respeito, para logo a seguir tocar Xô Satanás, em pleno ritmo carnavalesco.

Xô Satanas
Asa de Águia

Eu era um bêbado
Que vivia drogado,
Hoje estou curado
Encontrei jesus!
Encontrei jesus!
Encontrei jesus!

Na casa do senhor
Não existe satanás

Xô satanás!
Xô satanás!

Eu tava na vida,
Quase a me perder,
A minha tentação
Foi amar você,
Com tanta loucura
Eu não agüento mais

Xô satanás!
Xô satanás!
Xô satanás!
Xô satanás!

Muitas outras músicas se seguem, numa mistura de marchinhas tradicionais de carnaval, samba e repertório contemporâneo. Como na música “Portela na Avenida”, de Paulo César Pinheiro, podemos dizer que a Banda do Boi da Manta oferece a procissão do samba abençoando o divino carnaval.

De acordo com a Secretária de Cultura, Patrícia Rafael, O “Boi da Manta” é a mais tradicional festa de Pedro Leopoldo e tambem a mais aguardada do ano. Uma festa que tem vida própria, cuja tônica principal é o “coração” do Boi da Manta, que é a sua bandinha, arrastando com muita alegria os foliões e mascarados por todo o trajeto da rua Comendador Antônio Alves. Relata Patrícia que em respeito às tradições, a sonorização de rua que antecede ao cortejo tocou somente músicas como marchinhas de carnaval, samba enredo e axé. Desta forma a secretária relata objetivar manter acesa esta festa tão importante e histórica para a cidade de Pedro Leopoldo.

Observa Gisnaldo Amorim a presença de músicas na Banda do Boi de autoria de Benito de Paula, como Mulher Brasileira. Gisnaldo ressalta que esta é uma música sentimental, em homenagem ao amor e à mulher brasileira, uma importante referência à vida, ao encanto, à beleza feminina.

Agora chegou a vez, vou cantar
Mulher brasileira em primeiro lugar
Agora chegou a vez, vou cantar
Mulher brasileira em primeiro lugar

Norte a sul do meu Brasil
Caminha sambando quem não viu
Mulher de verdade, sim, senhor
Mulher brasileira é feita de amor

Gisnaldo também destaca a execução de Tudo está no seu lugar, de Benito de Paula, com o seguinte refrão
Tudo está no seu lugar
Graças a Deus, graças a Deus
Não devemos esquecer de dizer
Graças a Deus, graças a Deus
Tudo está no seu lugar
Graças a Deus, graças a Deus

Para assistir ao vídeo com execução desta música pelo compositor, consulte em http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=zFu2YrpDYtU#!

A Banda do Boi também executa tradicionalmente a música Vou festejar, de Jorge Aragão / Dida / Neoci, imortalizada pela voz de Beth Carvalho e entoada pela torcida do Atlético Mineiro em finais de jogos.

Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar
Mas chora!

Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar

É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar
Vou festejar
O teu sofrer
O teu penar

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão

Mas chora!

Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar

Mas chora!

A música Balancê, Balancê, de Braguinha e Alberto Ribeiro, composta em 1936, é outra que não pode faltar, combinando ritmos de marchinha e frevo e imortalizada por Carmen Miranda e Gal Costa.

Ô balancê, balancê…
Quero dançar com você
Entra na roda morena p’rá vêr
o balancê, balancê

Quando por mim você passa,
fingindo que não me vê
Meu coração quase se despedaça
no balancê, balancê

Você foi minha cartilha,
você foi meu ABC
E por isso eu sou a maior maravilha
do balancê, balancê

Eu levo a vida pensando,
pensando só em você
E o tempo passa e eu vou me acabando
no balancê, balancê.

Gisnaldo Amorim destaca, ainda, que a primeira marchinha de carnaval foi entoada pela sonorização de rua do Boi da Manta 2013 – Ó abre alas – e é, talvez, a mais ouvida de todos os tempos, de autoria de Chiquinha Gonzaga, uma célebre compositora brasileira que enfrentou preconceitos de seu tempo, compondo vários choros e marchinhas. Vila Lobos orquestrou composições de Chiquinha Gonzaga, que está na alma brasileira.

Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Eu sou da lira não posso negar
Eu sou da lira não posso negar
Ó abre alas que eu quero passar
Ó abre alas que eu quero passar
Rosa de ouro é que vai ganhar
Rosa de ouro é que vai ganhar

Pôde-se anda ouvir As pastorinhas, música de Noel Rosa e João de Barro que, segundo Gisnaldo, destaca as identidades do Brasil e as culturas populares religiosas de rua.

A estrela d’alva no céu desponta
E a lua anda tonta com tamanho esplendor.
E as pastorinhas, pra consolo da lua,
Vão cantando na rua lindos versos de amor.

Linda pastora, morena da cor de Madalena,
Tu não tens pena de mim
Que vivo tonto com o teu olhar.
Linda criança, tu não me sais da lembrança.
Meu coração não se cansa
De sempre, sempre te amar.

Executada em todos os dias de boi da manta, a Música Aquarela Brasileira de Martinho da Vila, é um dos clássicos do samba.

Vejam essa maravilha de cenário:
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval.
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela.
Caminhando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais.
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó.
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais.
Estava no Ceará, terra de irapuã,
De Iracema e Tupã
E fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia…
Bahia de Castro Alves, do acarajé,
Das noites de magia do Candomblé.
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu.
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura.
Feitiço de garoa pela serra!
São Paulo engrandece a nossa terra!
Do leste, por todo o Centro-Oeste,
Tudo é belo e tem lindo matiz.
No Rio dos sambas e batucadas,
Dos malandros e mulatas
De requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas,
Cachoeiras e cascatas de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emoldura em aquarela o meu Brasil.

Gisnaldo Amorim vê a presença da sacralidade da natureza brasileira na musicalidade do Boi da Manta. Ele se recorda de trecho da música Portela na avenida, que diz “tua águia altaneira, espírito santo no templo do samba”. A águia, na música, remete-se à natureza brasileira. Para Gisnaldo, estas músicas destacam o encanto diante da natureza brasileira, que músicos como Paulo César Pinheiro e martinho da vila chegam a associar com a luminosidade sagrada da trindade (pai, filho e espírito santo). O símbolo do espírito santo também é um ave, a pomba. Gisnaldo nota as raízes sagradas e profanas que se misturam no Boi da Manta. Pela faceta pagã alguns participantes chegam a expressar inclusive palavrões e expressões de liberação das censuras, sobretudo da sexualidade.

De acordo com a educadora Júnia Sales, pela música difundida no Boi da Manta pode-se expressar, viver e sentir as tradições brasileiras, refundando o gosto musical e o cultivo cultural pela valorização dos ritmos das marchinhas carnavalescas e do samba, com alegria e irreverência que fazem do Boi da Manta a melhor festa popular da cidade.

Edson Jorge encontra-se com a Ministra Marta Suplicy no Rio de Janeiro

Edson Jorge, do Cine Marajá, e seu filho Aroldo, participaram na última semana de cerimônia de anúncio do Fundo Setorial do Audiovisual no Rio de Janeiro, que visa apoiar o processo de digitalização dos cinemas do país. Edson entregou carta à Ministra da Cultura, Marta Suplicy, com relato da situação do Cinema em Pedro Leopoldo, fazendo solicitações de apoio ao Cine Marajá. Edson Jorge é o exibidor de cinema mais antigo do país, fato que comoveu a ministra e os presentes ao encontro.

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Na foto, terceira fila à direita, Edson Jorge e Aroldo em reunião do Programa Cinema Perto de Você, RJ. Foto André Melo.

A ministra Marta Suplicy anunciou, na oportunidade, a criação de uma linha financeira do Fundo Setorial do Audiovisual – FSA, no valor de R$ 140 milhões, voltada para a digitalização das salas de cinema administradas por empresas brasileiras. Além deste valor, um apoio não-reembolsável de até R$ 6 milhões será destinado à digitalização das salas de pequenos grupos exibidores. Este projeto de atualização tecnológica do parque exibidor brasileiro integra o programa Cinema Perto de Você.
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Foto André Melo.

O evento aconteceu na Sala Funarte/Sidney Miller, no Rio, e, além da ministra da Cultura, contou com a participação do diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, do diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, Julio Raimundo, e do presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas – FENEEC, Paulo Lui. O secretário do Audiovisual, Leopoldo Nunes, também esteve no evento.

Em sua fala, a ministra Marta Suplicy elogiou o trabalho conduzido pela Ancine no fomento ao cinema e ao audiovisual brasileiro e destacou a parceria do BNDES com o Ministério da Cultura em diferentes programas. Marta também tratou da importância de apoiar o audiovisual nacional e modernizar os espaços de exibição: “Está cada vez mais claro para todos que a Era de Gutenberg acabou, e que já estamos na Info-Era. Com essa iniciativa, que alavancará o cinema brasileiro, começamos finalmente a entrar no século 21.”

Para a ministra, o cinema tem importância estratégica para o Brasil: “Há pouco tempo comecei a entender o conceito de soft power, o esforço estratégico que os países fazem para difundir uma imagem positiva no mundo. Foi isso que fizeram os Estados Unidos com os filmes de Hollywood, que tiveram uma enorme influência colonizadora. Com sua diversidade cultural gigantesca, o Brasil tem tudo para ‘arrebentar’ no exterior, e o cinema é o veículo perfeito para essa inserção internacional.”

Representando os exibidores, Paulo Lui manifestou enorme satisfação com o lançamento da linha de digitalização do FSA: “O lançamento de uma linha de apoio à digitalização é fundamental para sustentar o crescimento da atividade. O Brasil cresce e o cinema também precisa crescer. Trabalhando juntos, viabilizaremos esse crescimento”, afirmou.

Em seguida, o diretor-presidente da Ancine fez uma apresentação detalhada da forma de operação da nova linha financeira do FSA, destacando que o papel da política pública é criar as condições para que o mercado se desenvolva. Segundo Manoel Rangel, “a digitalização reduz os custos de copiagem e transporte e modifica a economia do cinema, beneficiando produtores e distribuidores e trazendo novas oportunidades para os exibidores, como a inclusão de mais salas no circuito de lançamentos e a multiprogramação, com a oferta de novos conteúdos que podem aumentar a freqüência das salas.”.

Rangel explicou também que todos os recursos da linha de crédito serão destinados à compra e instalação de projetores digitais e equipamentos acessórios, e que a linha de crédito ficará disponível por 24 meses, ou até o esgotamento dos recursos disponíveis, o que acontecer primeiro: “A meta é digitalizar 1.400 salas em um prazo de 18 meses. Quanto mais salas de cinema o país tiver, mais a sociedade brasileira será atendida por esse serviço cultural, e mais espaço haverá no mercado para o filme nacional.” As autoridades presentes revelaram que 90% das salas de cinema no país estão em grandes aglomerações. Apenas 10% está em pequenos núcleos populacionais. A meta do Ministério da Cultura é de apoio aos pequenos exibidores e sustentação dos cinemas para públicos atualmente excluídos deste acesso cultural.

O Cine Marajá integra este circuito de cinemas resistentes à metropolização. O Cine Marajá foi inaugurado em 1956 e viveu várias crises, passando por fechamentos e reaberturas. Reaberto há alguns anos com apoio parcial de recursos aferidos por meio de renúncia fiscal, com apoio da Precon, o Cine Marajá vem sobrevivendo à concorrência da pirataria, à proximidade com cinemas de Belo Horizonte e com muita mobilização e apoio da sociedade organizada. Desde 2010 o Cine Marajá conta com o apoio do Cine Clube Marajá, que é composto por um grupo de pessoas voluntárias que se mobilizam para manter abertas as portas do cinema em Pedro Leopoldo. Dentre outros voluntários, na internet e em ações presenciais, estão os educadores Jùnia Sales Pereira e Gisnaldo Amorim Pinto, o produtor cultural Misael Elias, dentre outros. Gisnaldo Amorim ressalta a importância da regionalização dos cinemas e o necessário fortalecimento dos cinemas de cidades do interior, uma das formas, segundo Gisnaldo, de combate ao êxodo às grandes cidades e de fortalecimento das culturas locais. Júnia Sales comenta que a luta pelo Cine Marajá, em Pedro Leopoldo, é uma luta pelo cinema nacional, pelo pequeno exibidor e, em especial, pelo direito à cultura que as populações de pequenas cidades têm.

Na oportunidade, Edson do Marajá entregou carta à Ministra Marta Suplicy contendo relato de toda a luta pelo cinema em Pedro Leopoldo, atuante desde 1956. A carta contém relatos dos projetos em andamento no Cinema, como as promoções Cine Combo, o Cine Circo (André Luiz Vieira e Janio Tanaka), o Grupo Cine CLube Marajá no Facebook, o Cine Clube Bate Papo, o Projeto Direito e Cinema, com exibição de filmes comentados por profissionais da área de direito, com a coordenação da Fundação Cultural Dr. Pedro Leopoldo, projetos desenvolvidos por educadores da rede pública e das redes privadas de Pedro Leopoldo, para garantia de acesso e exibição comentada de filmes para crianças e jovens, dentre outros, além das parcerias com o cineasta Ernane Alves para exibição de filmes de sua autoria no Cine Marajá.

O Blog Cultura de Pedro Leopoldo faz votos de que o Cine Marajá seja contemplado, permanecendo, em Pedro Leopoldo, com a oferta cultural permanente e com a qualidade de exibição que lhe é peculiar.

(Texto adaptado de: Ascom/MinC, disponível em http://www.cultura.gov.br/site/2013/01/31/digitalizacao-das-salas-de-cinema/
(Fonte: Ascom/Ancine); (Fotos: André Melo)